Sidney Andrade

Como se faz para encontrar a tal indomável felicidade? Pergunta feita desde os primórdios da tão famigerada e irracional razão humana, e que não se cala por mais que nos demos respostas de toda sorte, estas, provavelmente, apenas paliativos para a moléstia maior que é a eterna insatisfação do homem.


Quando eu queria gritar aos sete mil ventos do desabafo que não me achava, de todo e nem em proximidade, feliz como felizes são os que felizes se dizem ser, jamais me fizeram outra simples pergunta, curiosidade inofensiva e mesmo carinhosa (a depender de quem a fizer): você é feliz, menino? Hoje é que sei mais tirar melhor proveito do que me pode trazer alguma felicidade provisória.


Que é preciso amar, eis um consenso teimoso – pra ser amado e amar de volta com mais intensidade, e poder amar mais coisas com essa sobra do amor, e que quanto mais se ama, tantos mais enxergam no amador a oportunidade melhor de amar; enfim, todas essas regras de causa e efeito, meio que obvias, basta usar um ínfimo de lógica, a filosofia do retorno, ação e reação, anunciada por físicos e não por filósofos, que hoje qualquer livro de auto-ajuda dos mais vagabundos proclama. Se ser feliz precisar de fórmula, já o caso estaria resolvido, não fosse a resistência tola do homem a regras e sua amnésia com equações, variáveis e constantes de cálculos afetivos, afinal essa facilidade da relação tão complexa amor/felicidade parece que, só enquanto teoria, funciona muito bem, obrigado.


Tem-se visto que, nesses tempos de quando qualquer um pode falar e escrever seus pensamentos, dos mais sublimes aos mais grotescos, endossados por tanta tecnologia – um blog de fácil manipulação a qualquer leigo, para dar um exemplo que inclua minha cara-de-pau –,dizia que em tempos de excesso de comunicação e de palavras que jorram fácil, anunciar-se feliz nem é coisa rara ou esquisita pro homem do século das guerras e moléstias de todos os séculos.


E a felicidade, pelo visto e pelo não visto, está acessível nas prateleiras das seções de literatura de supermercado, impressas sabe-se lá em que página, respondida na terceira linha do parágrafo zero do epilogo de uma historia sem fim. Pela lei do mercado, essa que também desenha os limites da nossa satisfação, tem muita produção porque há demanda em proporção. E se o tal do homem do século 21 (a quem espero ser apresentado algum dia, tão famoso, esse rapaz), fosse feliz como diz, qual a necessidade de desvendar os mistérios da vida (que é tão obvia, Deus meu!), e de descobrir o segredo da felicidade (tão honesta, a coitada, nunca escondeu nada de ninguém)?


Eu ainda doido pra que me perguntem se sou feliz, pra eu dizer que estou aprendendo, que cada dia dá-se um jeito de tornar mais doce o amargo do asfalto, que sempre se pode chorar de tristeza sem deixar a alegria insultada, todo mundo precisa de uma folga pra tudo, não há de ser-se risonho ininterruptamente, causaria mesmo cãibra nos músculos do sorriso, eu ansioso pra falar daquela obviedade da vida, que vai rodando óbvia feito a gente, feito o mundo óbvio, cheia de falhas, buracos, erupções e flores depois de um tempo e de outro cuidado, paciência tem que regar toda lava escorrida, eu ainda espero a pergunta que não cala, mas perdeu-se na mudez das aparências.


Todos somos felizes, não podemos reclamar (não é bonito reclamar), se um problema ainda não tem jeito, é só questão de tempo, o famoso homem do século 21 é gênio, está no auge de sua evolução, não se deve ser infeliz quando se tem o dom de tanta inteligência. Pois então eu que vos pergunto: como fica a tal inteligência, toda noite no sufoco do travesseiro, na cabeça afogada em pranto desse homem que é feliz por pura força retórica?


Sidney Andrade

Quando eu não sei bem como começar a falar de alguma coisa que eu quero falar muito, eu apelo pro dicionário. E eu li num dicionário que moda, para os fins que aqui intento, é a “forma atual do vestuário”. Das duas uma, ou quem faz moda não lê dicionário, ou quem escreve os dicionários é cafona mesmo. “Atual” é bem relativo nesse vai e vem de passarelas, porque estão a toda hora dizendo o que voltou a ser moda. Originalidade é o problema, mas tem muito brechó por aí injustamente tachado de brega.


Eu ouvi alguém falar na TV, e isso relacionado a musica, algo que deve calhar pra moda também: existe um movimento cíclico que parece fazer com que, de vinte em vinte anos, a gente descubra que coisas legais foram feitas vinte anos atrás. Impera essa sensação de que o que é – ora quem diria! – atual não é tão bom. A moda é estar fora de moda.


Ainda me apegando a definições, eu me encabulo com o tal do termo “cafona”. Cafona é não ter bom gosto. Não ter bom gosto é não seguir o uso habitual. E se minha linha de raciocínio estiver lógica, logo, o cafona é um cara que não segue a linha (principalmente a de raciocínio). Os consultores, no alto de seus saltos, defendem o bom senso ao vestir – que você use o que gosta, desde que modere (a sua dose de gosto não é a gosto). E já cansei de ouvir os “descolados” relacionando a cafonice alheia ao fato dos cafonas serem, no mínimo, um tanto desajustados. Se estar na moda depende do bom senso, por que, então, pra desfilar no meio metro de passarela não se exige um diploma de bípede?


Os modelos são cheios de personalidade, mas só usam o que lhe pagam pra usar. Aliás, se for falar em personalidade, as roupas arriscam superar quem as veste. Ora, o chick é vestir nome de gente, de preferência nome composto, pronunciado com biquinho. E quem diz que anda na moda sempre afirma escolher só o que lhe agrada, não usar tudo que a “indústria fashion” proclama fashion. Me avisem se for só paranóia minha: se me mandam escolher uma peça entre cinco mil, eu escolho a peça que mais me agrada dentre as cinco mil, mas ainda estou limitado a cinco mil imposições de escolhas. E voltar à moda o que já foi ajuda ainda a aumentar a ilusão de autonomia do elegante. Claro que não usam tudo que é dito fashion: impossível usar cinco mil peças de roupa numa temporada. E ainda há quem tente...


Desse jeito, até parece que eu ande pelado por aí, ou que eu cultive o algodão e crie as ovelhas que dão a lã com que confecciono minhas próprias roupas. Inevitável, do jeito que tá, alguém não fazer parte do sistema. Então fica combinado o seguinte: a gente pode vestir tudo aquilo que acha que escolheu, você cochicha no ouvido dos outros que eu sou cafona por não ter feito as pseudo-escolhas que você faria, eu, idem; e todo mundo fica satisfeito.

Sidney Andrade
Mesmo quando aparentemente apenas a aparência muda, algo mais profundo se movimenta. Há quem diga que as aparências enganam, e há que diga que a primeira impressão é a que fica. Eu não digo nada. Apenas mudo de aparência. Me entedio com facilidade: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”. E mesmo mudar, às vezes, vira hábito. É quando eu me aquieto e finjo ser constante pra variar um pouco.

Por esses dias me repreendi pensando em quem eu era. E nem foi pra dar conta de um perfil de internet, não. Esses famigerados “quem sou eu” preencho até com facilidade. Não precisa muita coisa pra satisfazer essa questão de formulário, basta um pedacinho de si, o mais prolixo, mais produtivo, e o campo já transborda subjetividade vã. A pulga atrás da orelha é o meu eu todo. Ridículo, porque já percebi: quem se pergunta muito sobre quem é não faz a menor questão de sabê-lo realmente. É só o hábito da dúvida.

Digo hábito pra não dizer vício de se questionar. Pôr à prova a própria existência. Já me peguei concluindo também que as coisas existem a despeito de sabermos delas. E nem adiantou. Ainda estou aqui, me esforçando pra exprimir um pouco do que sou. Por que será que “ser” não funciona mais como verbo intransitivo?

Sem saber bem que predicativo do sujeito me cabe (e, mesmo, será que é só o predicativo, ou o sujeito também muda?), me preocupo em parecer, vou testando as cascas e descartando-as pelo caminho. Feito serpente no deserto. A analogia é agressiva, mas é que falar de borboleta já é tão batido... E eu já até mencionei metamorfose. As cobras não se transmutam. Se renovando a cada muda de pele, uma cobra é sempre ela mesma. Eu sou?