Sidney Andrade
Alguém mais reparou que os Ipês floresceram? Tem tanta coisa acontecendo em redor do mundo, em nosso redor, que quase ninguém reparou que os Ipês já floresceram.

Há alguns meses, não tem como esquecer, morreu um cantor bem famoso, bem polêmico também. Todo mundo reparou. Todo mundo só falava nele, em como a vida dele foi, em como a morte dele podia ter sido. Onde quer que fosse, tinha sempre alguém falando nisso. Mas ninguém reparou que os Ipês floresceram este mês.


Há algumas semanas, foi o maior estardalhaço. Todo mundo viu que a moça tava de vestido curto subindo a escada da faculdade. Todo mundo reparou que ela usava “fio dental”. Todo mundo fez questão de ver o vídeo na internet. Onde quer que olhasse, tinha alguém falando nela, na violência contra ela ou na safadeza dela. Em qualquer lugar que lesse, tinha lá um pitacozinho sobre o vestido. Todo mundo reparou no vestido rosa-gritante dela, mas ninguém notou no rosa silencioso dos Ipês que floresceram esta semana.


Há alguns dias, quem não viu?, faltou luz no país inteiro. E todo mundo teve que falar em como o caos se propagou, em como o escuro dá medo. Todo mundo preocupado em botar a culpa em alguém, seja no raio que não caiu, seja no funcionário que saiu por último e levou a sério demais quando disseram “o último a sair apaga a luz!”. Onde quer que olhasse, tinha piada ou briga sobre como todo mundo ficou no escuro aquela noite. E tão preocupados com o breu, ninguém reparou que, há poucos dias, os Ipês amarelos feito a luz do sol já floresceram.


Quase ninguém repara nos Ipês. Quase eu não reparava. Não é em qualquer lugar que eles estão... E não fosse a sorte de eu reparar junto com uma amiga linda que repara bem as coisas mais importantes, nem saberia que além de rosa e amarelo, também tem Ipê branco. Todo mundo esperando a Copa do Mundo e as Olimpíadas pros próximos anos. E eu só queria mesmo era ver um Ipê branco.


Sidney Andrade

Não que seja alguma data super importante, mas hoje é aniversário do DiVAGANTE (com o perdão da rima feia). Há dois anos comecei a dedicar minhas letras a este espaço que – nem sei bem ao certo – às vezes é lido por bons amigos e agradáveis desconhecidos. Este blog já me aliviou tantas angústias, e também me deu várias agradáveis surpresas. Dentre estas surpresas, aliás, estão os agradáveis desconhecidos que tornaram-se amigos – ainda que somente amigos de textos à distância –, graças ao caminho que minhas palavras correm sem que eu precise sair do lugar.


Como toda boa data, esta também me leva a lembrar do que eu era quando tudo começou, e comparar com o que me tornei por conta deste “tudo”. O DiVAGANTE, portanto, precisa ser homenageado, ainda que apenas de minha parte, por ter cumprido papel determinante em certos aspectos de minhas experiências. Foi pelo blog que comecei a escrever qualquer coisa, e foi por causa do blog que descobri ser isso a minha verdadeira vocação. Claro, pessoas muito mais importantes do que um espaço virtual têm maior parcela de culpa nestas minhas descobertas. O DiVAGANTE, no entanto, sempre foi meu pretexto pra não parar, minha desculpa pra fugir, meu lenço pra chorar, e, ultimamente, meu cantinho pra sorrir. Se é das vivências que se faz um livro, é do que se extrai delas – ao menos no meu caso – que se constrói um diário público como este.


Suponho que esta necessidade de expor minhas opiniões, e até mesmo algumas intimidades, seja coisa de ego. E, pensando bem, apesar de tê-los em generosa quantidade, nunca gostei muito de segredos. Só que eu acabei me acostumando com eles. O DiVAGANTE foi onde pus em prática a lei fundamental para a sobrevivência, como decretou Lispector: “Porque há o direito ao grito”. Ironia ou não, por tanto me desvelar no DiVAGANTE, que no começo nem se chamava assim, acabei precisando inventar segredos. Foi quando comecei a cultivar um diário convencional, de papel e caneta, daqueles que (quase) ninguém pode ler. Afinal, preenchi um caderno inteiro, e já estou a encher o segundo de mistérios forjados (ou não).


Dois anos depois, não apenas passei a compreender mais a importância das coisas sem importância, como aprendi que o valor delas está em quem as possui. Ainda, cresci – literal e literariamente –; negar isso seria ingenuidade, embora afirmá-lo pareça arrogância. Mas não importa. De lá prá cá, o que tem sido escrito aqui, antes “Por Um Sonhador”, tornou-se obra inconsistente de um DiVAGANTE. Ainda que tenha sido trocar seis por meia dúzia, mesmo mudar como chamamos as coisas já é, em algum nível, modificar as próprias coisas.


Pedindo, nessa data querida, perdão aos meus queridos leitores por não estar mais tão assíduo quanto já fui. Mas é como lhes disse, coisas mudaram. O DiVAGANTE é meu reflexo. Parabéns pra nós dois. E obrigado às terceiras pessoas do meu discurso, por ainda nos aturarem.


Sidney Andrade

A Alan Ribeiro


E então ele descobriu que toda aquela sua veemência era apenas solidão. Assustou-se no começo, afinal de contas, estava perdendo algo forte de sua personalidade, mas então deu-se conta de que não era algo tão forte, apenas era a única face de sua personalidade à qual dava vazão. Desconhecia todas as sutilezas de seu próprio eu. Depois o medo foi virando uma noção tão nítida das coisas, algo assim tão translúcido quanto o vento, vinda ironicamente dessa sua nova forma de ignorar. Experimentou finalmente o doce privilégio de não querer saber, e assim se libertou das coisas que não eram suas, inclusive tanta veemência. De fato, agora ele sabia, só era firme no que dizia porque o que dizia não lhe pertencia, tomava emprestado da imaginação, esta que, principalmente no caso dele, não se encaixava no que se pode chamar de particularidade. Não, aquilo que inventava, sem saber-se inventando – e mesmo julgando-se alguém assim tão originalmente genial –, era fruto tão somente da vontade de não ser o que realmente era. Aliás, mais que isso, suas teorias vinham mesmo da vontade involuntária de tornar-se algo além dele mesmo, porque auto-piedade sempre fora seu forte. É bem verdade, pena não alavanca atitudes, pelo contrário, ela as empaca. E por sentir-se num atoleiro sem corda a que se agarrasse, seu consolo era maldizer a terra e a água, que juntas formavam a lama que o afogava. Porque estavam unidas, e saber que a lama da qual não se livrava era mesmo a prova de que a união fazia alguma força contra ele que, sozinho, achava-se invencível, por ter muita opinião, saber disso o endurecia. Como achando que ter a resposta na ponta da língua fosse a corda que o libertaria, descobriu que, na verdade, trocava seis por meia dúzia. Em vez de se afogar na lama, se enforcava cada vez mais forte. Na corda da sua imaginação, um nó errado e se está degolado para sempre. Mas houve um tempo em que ele se cansou de tanto se puxar pra se salvar. Reparou que era mesmo impossível. Ouviu dos reais gênios (aqueles que não eram ele), os da Física principalmente, ouviu deles que por uma lei natural alguém não se pode erguer puxando os próprios cabelos. Como, então, não podia salvar-se puxando a própria corda, esperou que outra mão aparecesse. E não podia deixar de se irritar por não ser suficiente sua imaginação para que isso finalmente acontecesse. Forjar o formato dos dedos, desenhar o antebraço, nada adiantava. Descobriu que especulações não salvam vidas, apenas as adiam. Resolveu, por falta de recursos e escassez de alternativas, esperar. É como todo mundo sabe: na lama, quanto mais nos debatemos pra subir, mais somos puxados pro fundo. Isso devia estar escrito em todos os livros, ou ao menos num que fosse de leitura fundamental à sobrevivência, ele concluiu depois que, por puro acaso, uma mão o salvou. As pessoas esquecem do óbvio, isso é um crime, que quase o matou, ele refletia. E se foi preciso ter lama pelo nariz para finalmente descobrir a beleza oculta nas verdades pré-fabricadas, agora ele podia, enfim, respirar aliviado. Sereno, sem a urgência de sempre, ele agora experimenta a paz de quem não anseia por paz, e acha até que já ouviu essa frase em algum lugar, mas não se importa mais em descobrir se está lembrando ou inventando. Sua veemência acabou-se. Aquela sua necessidade de originalidade barata – ele descobriu e ri-se agora, condescendente consigo mesmo –, aquela mania de originalidade que ele tanto perseguia era, afinal, recalque. E agora ele já não mais precisa estar constantemente provando-se forte, pois que, de fato, ele ficou mais forte por não querer mais isso. Ser forte nem sempre implica em ser mais feliz, quantos bebês já se foram vistos infelizes por terem poucos anticorpos? Ele queria a felicidade oculta na fragilidade dos bebês, a felicidade que termina quando a doce inocência acaba. Ele queria a felicidade inédita da ignorância, e por não saber que era esse o seu desejo, por tampouco saber que essa felicidade tão simples existia, enfim, por acidente foi que a encontrou. E a noção das coisas tão nítidas quanto o vento lhe atingiram tão profundamente que ele sentiu-se privilegiado por sentir-se tão feliz e, além disso, ter a consciência de que essa felicidade não era forjada por suas teorias. E, tão feliz, ouviu dizer que felicidade alguma dura muito. Num flash de lucidez, percebeu docemente e com alguma tristeza benévola, serem esses que dizem isso os mais infelizes. Como não aceitando que esta sensação tão nova e simples fosse frívola, e como querendo provar aos desiludidos – enquanto ex-desiludido que era –, como querendo provar que aquela felicidade era para todos, ele resolveu ser feliz plenamente, sem pensar nisso. E por mais que insistissem os desesperançados, ele experimentava o que antes nunca vivera. E então ele viveu feliz enquanto era feliz, e isso era mais que suficiente.

Sidney Andrade

[...]

Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

[...]

Alberto Caeiro


Um grande amigo meu (grande mesmo!) meio que reclamou comigo pelo fato de meus textos serem, na sua imensa maioria, “tristes”. Eu preciso concordar com ele, justificando com a fala de outra grande (enorme!) amiga minha quando sabiamente comenta que a tristeza nos dá tempo pra pensarmos sobre ela, enquanto a alegria é instantânea, de modo que nos preocupamos mais em sentirmo-nos alegres do que em pensar sobre isso. Dessa vez, então, eu quero ser o oposto disso, o oposto de mim. Quero parar e refletir sobre a minha alegria. E quero que esse seja um texto feliz pra mim escritor e pros prováveis leitores. Se o riso é contagioso, então deixe que essas minhas palavras tornem-se a mais nova epidemia da moda.


Há alguns textos atrás, logo antes do meu ano-novo mais recente, escrevi o cúmulo da melancolia e ainda fui covarde, pedindo aos que me lessem pra não me cobrarem nada sobre aquilo. Pois agora eu me retrato e exijo: por gentileza, comentem comigo minha alegria. Festejar sozinho não tem graça, eu preciso de cúmplices. É só que eu descobri, agora enquanto escrevo este, que eu não sei falar tão bem das alegrias. E me sinto tão feliz que estou desesperadamente sem palavras.


Porque minha primavera, que antes tinha apenas um belo girassol, agora é jardim sem folhas, apenas pétalas. E é tão bom sentir desse jeito, que eu nem me importo de soar assim tão brega. Inclusive, tem um monte de clichezinho que calharia pra esta minha nov(a-)idade. Aquele que manda a gente esperar pra alcançar, aquele outro dizendo que depois de tempestades vêm sempre calmarias, o que alerta haver um par pra tudo na vida usando a imagem de chinelos velhos (ora, pois experimentei até literalmente o dos chinelos!!)... Enfim, minha nov(a-)idade trouxe-me uma alegria tão batida que eu me arrependo de ter querido tanto, por tanto tempo, ser “moderninho” e descolado. Estou começando mesmo a acreditar que as melhores verdades estão ocultas na obviedade, “hiding in plain sight”.


E este bem-estar é tão novo que nem vou me aprofundar nas analogias de visão, olhos, retinas, e todos aqueles meus clichês de mim mesmo. Não. Até porque ultimamente tenho esquecido que não enxergo. Falta mesmo é tempo e espaço pra tanta alegria. Se dá medo? Claro que sim. E isso é o melhor da coisa toda. Pra temer perder é preciso possuir algo. Eu tenho! Novo e alegre. Ganhei de aniversário...

Sidney Andrade

Ao balcão da papelaria que fica em frente à minha casa, testemunho o duelo gravíssimo entre mãe e filha:


Mas a professora disse que era pra pintar de Rosa, mãe! E isso é Rosa, minha filha! Não é, mãe. E que cor é essa, então, se não for Rosa? Isso é Cor-de-pele. Cor-de-pele, filha? Sim, mãe, Cor-de-pele, não é Rosa, não. Isso não é Cor-de-pele, isso é Rosa, querida. É não, mãe, isso não é Rosa!


Nesse momento, a menina sai, decidida, em busca de algo. A mãe vira pra mim e pergunta o que desejo. Eu só queria algumas folhas A4, brancas, sabe? Sem impasse de cor, coisa simples, pra botar o preto dumas palavras por cima, sem muita discussão. A não ser que você queira discutir qual a porcentagem de tinta necessária pra que o preto seja preto, e não um cinza muito escuro. Enfim, ia a mãe contar as folhas, quando a filha regressou, firme, segurando o caderno:


Olha aqui, mãe, na tarefa tá dizendo pra eu pintar de Rosa, não pra pintar de Cor-de-pele, e meu lápis Rosa acabou, e nessa caixa nova não tem Rosa, tem Cor-de-pele. Mas meu amor, esse lápis é Rosa. È não, mãe, não é! – A menina pega o lápis e aproxima do braço, que tem a pele bem clarinha. – Tá vendo, mãe?, é Cor-de-pele, Rosa é outra coisa. Meu bem, Cor-de-pele não tem nada a ver com a cor da pele, isso aqui é Rosa, não é Rosa, isso aqui, Sidney?


A mãe, numa súplica desesperada, olha pra mim estendendo o lápis como uma cruz. Na mesma hora, a criança também me olha, com a tarefa na mão e aqueles olhinhos também suplicantes naturais de toda criança. Meu Deus! E agora o que eu respondo? Se eu digo que é Cor-de-Pele, a mãe fica desmoralizada, sem autoridade. Eu não quero ser o responsável pela destruição da figura de uma mãe! Se eu digo que é Rosa, eu desiludo totalmente a criança, porque, de fato, era um rosa diferente, bem suave, parecido com o tom da pele da menina, branquinha. Eu também não podia chegar com todo um papo ideológico, dizendo a ela que há muitas tonalidades diferentes de pele e que a nomenclatura utilizada era imparcial e até um tanto racista. Eu não quero ser o bicho-papão do discurso politicamente correto duma criança! Meu Deus, o que eu digo?


Recontei as folhas, brancas sem dúvida do branco (por que ela não me perguntou se a folha era branca?!), com alguma angústia, não por desconfiança, mas pra ganhar tempo. Olhei pra mãe com o lápis em punho, olhei pra menina tão miudinha olhando de baixo, indefesa. Precisei me evadir: Ahm... assim, é um Rosa – mirando a mãe – ... mas bem clarinho – voltando-me, com culpa, pra pequena.


Viu só, meu bem?, clarinho, mas é Rosa. A professora disse que era de Rosa, na tarefa tem dizendo que é Rosa, não falou nem claro nem escuro. – A menina saiu outra vez, resolutíssima. Recebi o troco da mãe já impaciente com o impasse. E me deu um “obrigado” bem suspirado, como quem diz “O jeito é dar-lhe outra caixa-de-lápis.”