Como se faz para encontrar a tal indomável felicidade? Pergunta feita desde os primórdios da tão famigerada e irracional razão humana, e que não se cala por mais que nos demos respostas de toda sorte, estas, provavelmente, apenas paliativos para a moléstia maior que é a eterna insatisfação do homem.
Quando eu queria gritar aos sete mil ventos do desabafo que não me achava, de todo e nem em proximidade, feliz como felizes são os que felizes se dizem ser, jamais me fizeram outra simples pergunta, curiosidade inofensiva e mesmo carinhosa (a depender de quem a fizer): você é feliz, menino? Hoje é que sei mais tirar melhor proveito do que me pode trazer alguma felicidade provisória.
Que é preciso amar, eis um consenso teimoso – pra ser amado e amar de volta com mais intensidade, e poder amar mais coisas com essa sobra do amor, e que quanto mais se ama, tantos mais enxergam no amador a oportunidade melhor de amar; enfim, todas essas regras de causa e efeito, meio que obvias, basta usar um ínfimo de lógica, a filosofia do retorno, ação e reação, anunciada por físicos e não por filósofos, que hoje qualquer livro de auto-ajuda dos mais vagabundos proclama. Se ser feliz precisar de fórmula, já o caso estaria resolvido, não fosse a resistência tola do homem a regras e sua amnésia com equações, variáveis e constantes de cálculos afetivos, afinal essa facilidade da relação tão complexa amor/felicidade parece que, só enquanto teoria, funciona muito bem, obrigado.
Tem-se visto que, nesses tempos de quando qualquer um pode falar e escrever seus pensamentos, dos mais sublimes aos mais grotescos, endossados por tanta tecnologia – um blog de fácil manipulação a qualquer leigo, para dar um exemplo que inclua minha cara-de-pau –,dizia que em tempos de excesso de comunicação e de palavras que jorram fácil, anunciar-se feliz nem é coisa rara ou esquisita pro homem do século das guerras e moléstias de todos os séculos.
E a felicidade, pelo visto e pelo não visto, está acessível nas prateleiras das seções de literatura de supermercado, impressas sabe-se lá em que página, respondida na terceira linha do parágrafo zero do epilogo de uma historia sem fim. Pela lei do mercado, essa que também desenha os limites da nossa satisfação, tem muita produção porque há demanda em proporção. E se o tal do homem do século 21 (a quem espero ser apresentado algum dia, tão famoso, esse rapaz), fosse feliz como diz, qual a necessidade de desvendar os mistérios da vida (que é tão obvia, Deus meu!), e de descobrir o segredo da felicidade (tão honesta, a coitada, nunca escondeu nada de ninguém)?
Eu ainda doido pra que me perguntem se sou feliz, pra eu dizer que estou aprendendo, que cada dia dá-se um jeito de tornar mais doce o amargo do asfalto, que sempre se pode chorar de tristeza sem deixar a alegria insultada, todo mundo precisa de uma folga pra tudo, não há de ser-se risonho ininterruptamente, causaria mesmo cãibra nos músculos do sorriso, eu ansioso pra falar daquela obviedade da vida, que vai rodando óbvia feito a gente, feito o mundo óbvio, cheia de falhas, buracos, erupções e flores depois de um tempo e de outro cuidado, paciência tem que regar toda lava escorrida, eu ainda espero a pergunta que não cala, mas perdeu-se na mudez das aparências.
Todos somos felizes, não podemos reclamar (não é bonito reclamar), se um problema ainda não tem jeito, é só questão de tempo, o famoso homem do século 21 é gênio, está no auge de sua evolução, não se deve ser infeliz quando se tem o dom de tanta inteligência. Pois então eu que vos pergunto: como fica a tal inteligência, toda noite no sufoco do travesseiro, na cabeça afogada em pranto desse homem que é feliz por pura força retórica?



