A Alan Ribeiro
E então ele descobriu que toda aquela sua veemência era apenas solidão. Assustou-se no começo, afinal de contas, estava perdendo algo forte de sua personalidade, mas então deu-se conta de que não era algo tão forte, apenas era a única face de sua personalidade à qual dava vazão. Desconhecia todas as sutilezas de seu próprio eu. Depois o medo foi virando uma noção tão nítida das coisas, algo assim tão translúcido quanto o vento, vinda ironicamente dessa sua nova forma de ignorar. Experimentou finalmente o doce privilégio de não querer saber, e assim se libertou das coisas que não eram suas, inclusive tanta veemência. De fato, agora ele sabia, só era firme no que dizia porque o que dizia não lhe pertencia, tomava emprestado da imaginação, esta que, principalmente no caso dele, não se encaixava no que se pode chamar de particularidade. Não, aquilo que inventava, sem saber-se inventando – e mesmo julgando-se alguém assim tão originalmente genial –, era fruto tão somente da vontade de não ser o que realmente era. Aliás, mais que isso, suas teorias vinham mesmo da vontade involuntária de tornar-se algo além dele mesmo, porque auto-piedade sempre fora seu forte. É bem verdade, pena não alavanca atitudes, pelo contrário, ela as empaca. E por sentir-se num atoleiro sem corda a que se agarrasse, seu consolo era maldizer a terra e a água, que juntas formavam a lama que o afogava. Porque estavam unidas, e saber que a lama da qual não se livrava era mesmo a prova de que a união fazia alguma força contra ele que, sozinho, achava-se invencível, por ter muita opinião, saber disso o endurecia. Como achando que ter a resposta na ponta da língua fosse a corda que o libertaria, descobriu que, na verdade, trocava seis por meia dúzia. Em vez de se afogar na lama, se enforcava cada vez mais forte. Na corda da sua imaginação, um nó errado e se está degolado para sempre. Mas houve um tempo em que ele se cansou de tanto se puxar pra se salvar. Reparou que era mesmo impossível. Ouviu dos reais gênios (aqueles que não eram ele), os da Física principalmente, ouviu deles que por uma lei natural alguém não se pode erguer puxando os próprios cabelos. Como, então, não podia salvar-se puxando a própria corda, esperou que outra mão aparecesse. E não podia deixar de se irritar por não ser suficiente sua imaginação para que isso finalmente acontecesse. Forjar o formato dos dedos, desenhar o antebraço, nada adiantava. Descobriu que especulações não salvam vidas, apenas as adiam. Resolveu, por falta de recursos e escassez de alternativas, esperar. É como todo mundo sabe: na lama, quanto mais nos debatemos pra subir, mais somos puxados pro fundo. Isso devia estar escrito em todos os livros, ou ao menos num que fosse de leitura fundamental à sobrevivência, ele concluiu depois que, por puro acaso, uma mão o salvou. As pessoas esquecem do óbvio, isso é um crime, que quase o matou, ele refletia. E se foi preciso ter lama pelo nariz para finalmente descobrir a beleza oculta nas verdades pré-fabricadas, agora ele podia, enfim, respirar aliviado. Sereno, sem a urgência de sempre, ele agora experimenta a paz de quem não anseia por paz, e acha até que já ouviu essa frase em algum lugar, mas não se importa mais em descobrir se está lembrando ou inventando. Sua veemência acabou-se. Aquela sua necessidade de originalidade barata – ele descobriu e ri-se agora, condescendente consigo mesmo –, aquela mania de originalidade que ele tanto perseguia era, afinal, recalque. E agora ele já não mais precisa estar constantemente provando-se forte, pois que, de fato, ele ficou mais forte por não querer mais isso. Ser forte nem sempre implica em ser mais feliz, quantos bebês já se foram vistos infelizes por terem poucos anticorpos? Ele queria a felicidade oculta na fragilidade dos bebês, a felicidade que termina quando a doce inocência acaba. Ele queria a felicidade inédita da ignorância, e por não saber que era esse o seu desejo, por tampouco saber que essa felicidade tão simples existia, enfim, por acidente foi que a encontrou. E a noção das coisas tão nítidas quanto o vento lhe atingiram tão profundamente que ele sentiu-se privilegiado por sentir-se tão feliz e, além disso, ter a consciência de que essa felicidade não era forjada por suas teorias. E, tão feliz, ouviu dizer que felicidade alguma dura muito. Num flash de lucidez, percebeu docemente e com alguma tristeza benévola, serem esses que dizem isso os mais infelizes. Como não aceitando que esta sensação tão nova e simples fosse frívola, e como querendo provar aos desiludidos – enquanto ex-desiludido que era –, como querendo provar que aquela felicidade era para todos, ele resolveu ser feliz plenamente, sem pensar nisso. E por mais que insistissem os desesperançados, ele experimentava o que antes nunca vivera. E então ele viveu feliz enquanto era feliz, e isso era mais que suficiente.



Pra ser feliz se precisa de pouco não é CARA?
(E agora andas sumido... ai ai, roubado pelo ar que inspira da outra boca. Redimido, eu diria!)