Peso

Em que estado alguém se encontra quando volta cheio de risos mas não fez nenhum amigo? Um pensamento solto me incomoda. Ontem morreu tanta gente e eu nem chorei. Aliás, que pecado, da última vez que uma pessoa muito importante morria, eu me afogava num gozo provisório. Tão dramático: ao mesmo tempo em que uns se despedem, outros se empenham no ofício da concepção – a maioria mais pelo hábito que pela finalidade do ofício. Hoje também morreu gente, amanhã, quem sabe eu chore. As crianças correm na rua como se não houvesse perigo, o vidro é blindado como se o perigo fosse enorme. Mas a prisão maior ninguém reconhece, estão muito ocupados achando que podem escolher. Alguém precisava avisá-los, mas a responsabilidade, quem suporta? Alguns poucos já tentaram, só que também é preciso saber ouvir. E quem aprendeu precisava ainda ter a caridade de passar adiante a lição. De modo que sofremos todos do mesmo cárcere: mudam os tempos, os lugares se transformam, as vítimas somos todos, mas o crime é sempre o mesmo. Eu queria ter mais coragem do que tenho e, assim, conseguir a humildade de consertar-me antes de me aventurar a aconselhar alguém.

1 Divagações dos leitores:

  1. fikou bonita essa historia
    parabéns pelo seu talento

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