Eu também

A moça que não conseguia se expressar ansiava sobretudo por alguém que não a compreendesse. Não suportaria por muito mais tempo a aguda impressão de que os outros se deixavam enganar por ela assim tão de boa vontade. Sempre que dizia algo, se estranhava um pouco mais. No entanto, quem a escutava parecia compreender-lhe tão satisfatoriamente que, vez por outra, ela se sentia até mesmo insultada. Depois da ofensa vinha outra angústia: eles só poderiam estar mentindo. Porque tratava-se de uma mentira tudo o que ela transmitia, e quem concordasse com ela seria cúmplice de um crime involuntário. Ao mesmo tempo em que não tinha intenções maliciosas, tampouco fazia questão de corrigir seus equívocos. De modo que aquela moça não suportava mais a implacável tolerância com a qual estabelecia uma comunicação com os outros.

Por exemplo, quando sua melhor amiga lhe dizia que estava namorando, a moça precisava de uma disposição heroica para conseguir passar para a outra a ideia de satisfação melancólica, o que nunca funcionava, porque sua amiga estava também constantemente a reclamar da antipatia que essa moça demonstrava diante das tentativas de construir um amor ainda que provisório. Se era verdade que as duas concordavam no que dizia respeito a refutar os amores românticos uma da outra, também era verdade que essa moça sabia ser aquela resistência uma forma de amor romântico. Só que por não conseguir expressar essa importante diferença, ela aos poucos se ia convencendo de que se tratava de simples cuidado fraterno. A dor maior era ir vendo que sua falta de termos também conseguia aos poucos convencer a amiga.

Então o que a moça sentia falta era de alguém que lhe dissesse: não, meu bem, eu não te compreendo. A sensibilidade dos que ignoram a encantava. Quando o sobrinho de sete anos lhe perguntou “quanto tempo falta pra mais tarde?” por causa da mãe que insistia em lhe adiar o sorvete, ela teve vontade de revelar-lhe seu segredo. Sendo aquele garoto portador de um espírito leve o bastante para se incomodar com a tal inexatidão dos termos, talvez fosse ele seu melhor confidente. Se ela contasse a uma criança o que não compreendia em si mesma e obtivesse a incompreensão natural em resposta, não lhe restaria nada além de um entendimento. O que lhe obrigaria finalmente a confessar à melhor amiga algo tão secreto que precisava de muita ignorância para ser desvendado. E com isso, o risco maior seria a amiga reagir com um “eu entendo” – o que aconteceria bem provável e insuportavelmente.

A moça já tinha percebido como são poucas as pessoas que se prestam a suportar a imprecisão do sorvete adiado. E por mais romântico que fosse aquele amor, aquele amor não resistiria à farsa da correspondência. Isso tudo ela pensava enquanto decidia qual seria a melhor resposta para os grandes olhos úmidos do garoto. Quase afogando-se, ela sucumbiu: “Posso te fazer uma pergunta muito secreta?”. E depois daqueles olhos ficarem ainda maiores e secarem, ela arriscou: “Quanto tempo você acha que mais tarde devia demorar?” – num exercício intenso de aproximação, a pergunta soou enigmática, quando o que ela queria era ser óbvia.

Houve uma pausa. Durante a delícia de um constrangimento infantil, ela se empenhava em retirar de qualquer resposta dele alguma resolução. Aprisionado pelos grandes olhos que agora eram dela, o garoto lançou-se com a indiferença de uma fera sem fome: “Ah, sei lá”. Nem tanto pela falta do conhecimento, mas pela total morte da curiosidade diante da pergunta tão pouco secreta foi que ela sorriu. Assim: quando seu sobrinho decodificou sua questão, ela teve a impressão de ter acordado uma entidade muito grave que, não vendo razão para estar desperta ainda – não tendo um motivo que lhe justificasse a presença –, se fizesse adormecer novamente, sem alarde.

Mas então era tarde demais e a moça já havia transformado o sorriso em mais uma vontade de expressão. Só que a amiga agora tinha um namorado, o que lhe travava um pouco os músculos. Diante da outra, a moça respirava fundo e procurava, bem no interior, aquela entidade gravíssima. Seu gesto definitivo de expressão apenas seria possível se conseguisse invocar a curiosidade perecível dos que anseiam. Ela foi juntando cuidadosamente, palavra por palavra – como quem constroi uma oração –, os termos exatos para compor o ritual. Contraída, ouviu-se diante da amiga, e percebeu, no entanto, que sua maneira de comunicar era mais matemática do que exotérica. Ao querer transmitir uma celebração de suas sensações, o que se escutou dizer era apenas uma fórmula: “Mas eu te amo diferente...”

Definitivamente tinha errado ao formular. Não era aquilo, porque não era simples, nem exato. Conjunção adversativa mais pronome mais pronome mais verbo mais adjetivo que era advérbio... Não cabia. Como seria então possível que alguém no mundo a compreendesse, se ela fracassava mesmo conseguindo a façanha da conjunção adversativa? O próprio silêncio era sua derrota. O sorriso da amiga que ouviu aquela aberração era sua sentença. E o que ouviu depois, seu pior castigo. A amiga lhe dissera “Eu também”.

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