Um suspiro e um cansaço, a epifania: aquilo bom que vivi me quebrou. Perdoe-me o drama. Eu demorei muito querendo coisas lindas, e quando cheguei o mais perto que pude de algo parecido com elas, escolhi o que julgava ser a minha salvação – me aproximei e agarrei. E como quase nada dura para sempre (o que dura para sempre é porque acabou sem que percebêssemos), eu esperava que, pelo menos, tivesse sido uma experiência edificante. O curioso é que, até meia horinha atrás, eu estava convicto de que tinha sido uma vivência bastante edificante. Mas assim: o pior veneno para uma ilusão é pensar que ela poderia ser real. Como o fato de o placebo não funcionar mais comigo, desde que me apresentaram ao conceito de placebo – agora, sempre que tomo um comprimido para a dor, cogito que aquilo possa apenas ser farinha. E se for aspirina mesmo, o triste é que talvez mesmo assim a dor não passe: o contraplacebo. Entende por que eu digo que estou quebrado?
Ora, você veja só, se um dia você percebe que sua melhor experiência te levou a uma inércia, o que você sentiria? E não tome inércia por imobilidade, porque compreendendo bem a Física a gente sabe que a continuidade de um movimento também é um estado de inércia dos corpos. Lembro-me bem que antigamente eu era muito menos metafísico. Hoje eu fico procurando coisas por trás das coisas, feito um viralata faminto. Outro dia mesmo, saí à rua às oito e meia da manhã de um dia excepcionalmente nublado e vi que, por trás de umas folhas muito altas, um poste ainda estava aceso. Então eu pensei: ele ainda está aceso ou ele já está aceso? Então fui mais longe: e se, por acaso, os postes, na verdade, nunca se apagam e a gente não se dá conta porque, de certa forma, a luz dos dias nos cegam para os brilhos noturnos? Então seria mais uma questão de: desde quando aquele poste estaria aceso? Aí, de súbito, eu me sinto um poste, e a chuva cai fina e eu estou sem guardachuva e fico mais inerte ainda. Mas desde quando? Desde que terminaram as coisas lindas que vivi e que deveriam me ter edificado, foi o que eu acabei de concluir. Só que, apesar de tudo, o mundo é piedoso com todos. E os físicos são os melhores poetas, mesmo sem querer: a coisa da ação e reação, por exemplo, é o argumento mais infalível contra os lamentadores. Depois desta “lei” declarada, não pode-se mais dizer que se sente o peso do mundo nas costas. Em tempo, a Terra só pesa sobre você o peso que você exerce sobre ela. Então quando eu me sinto profundamente sobrecarregado, não é que as coisas do mundo estejam a cair mais forte sobre mim: é que eu estou me exacerbando. Deito na grama, de costas pro chão, e penso: sinto o mundo às minhas costas com uma força de 65kg, eu estou cinco quilos acima do peso, a Terra me revida esse excesso sem piedade, porque não a consultei antes de engordar. E pelo fato do mundo ser absolutamente imparcial com suas leis, fico achando que ele é injusto comigo. Devo estar falando algumas bobagens que farão os mais matemáticos rirem. Mas, se não me engano, foi Quintana quem disse que, às vezes, a gente acha que está falando bobagens e, na verdade, está fazendo poesia. E o contrário também: os físicos fazem poesia achando que estão descobrindo coisas muito sofisticadas. Eu só me pergunto se é tentando fazer poesia que vou conseguir me consertar...
Ora, você veja só, se um dia você percebe que sua melhor experiência te levou a uma inércia, o que você sentiria? E não tome inércia por imobilidade, porque compreendendo bem a Física a gente sabe que a continuidade de um movimento também é um estado de inércia dos corpos. Lembro-me bem que antigamente eu era muito menos metafísico. Hoje eu fico procurando coisas por trás das coisas, feito um viralata faminto. Outro dia mesmo, saí à rua às oito e meia da manhã de um dia excepcionalmente nublado e vi que, por trás de umas folhas muito altas, um poste ainda estava aceso. Então eu pensei: ele ainda está aceso ou ele já está aceso? Então fui mais longe: e se, por acaso, os postes, na verdade, nunca se apagam e a gente não se dá conta porque, de certa forma, a luz dos dias nos cegam para os brilhos noturnos? Então seria mais uma questão de: desde quando aquele poste estaria aceso? Aí, de súbito, eu me sinto um poste, e a chuva cai fina e eu estou sem guardachuva e fico mais inerte ainda. Mas desde quando? Desde que terminaram as coisas lindas que vivi e que deveriam me ter edificado, foi o que eu acabei de concluir. Só que, apesar de tudo, o mundo é piedoso com todos. E os físicos são os melhores poetas, mesmo sem querer: a coisa da ação e reação, por exemplo, é o argumento mais infalível contra os lamentadores. Depois desta “lei” declarada, não pode-se mais dizer que se sente o peso do mundo nas costas. Em tempo, a Terra só pesa sobre você o peso que você exerce sobre ela. Então quando eu me sinto profundamente sobrecarregado, não é que as coisas do mundo estejam a cair mais forte sobre mim: é que eu estou me exacerbando. Deito na grama, de costas pro chão, e penso: sinto o mundo às minhas costas com uma força de 65kg, eu estou cinco quilos acima do peso, a Terra me revida esse excesso sem piedade, porque não a consultei antes de engordar. E pelo fato do mundo ser absolutamente imparcial com suas leis, fico achando que ele é injusto comigo. Devo estar falando algumas bobagens que farão os mais matemáticos rirem. Mas, se não me engano, foi Quintana quem disse que, às vezes, a gente acha que está falando bobagens e, na verdade, está fazendo poesia. E o contrário também: os físicos fazem poesia achando que estão descobrindo coisas muito sofisticadas. Eu só me pergunto se é tentando fazer poesia que vou conseguir me consertar...

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