Para ler ouvindo “Universe & U” – KT Tunstall
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Deixa eu só te contar um segredo. Já faz tanto tempo, não é mesmo? A gente conversava, engolidos pela tarde seca, o banco seco afixado à poeira das verdades indizíveis. Meu segredo é essa saudade que, de já tão intrínsecamente minha, vai e volta em ondas de pasmo e suspiros. Hoje o horóscopo foi meu gatilho. “A cada música que você escuta, encontra um pouco dele(a).” E eu era um tanto menos místico naqueles tempos... Bons? Sim, eram bons. Não que os tempos de hoje não sejam também. Mas é que tornei-me incorruptivelmente libriano. Então precisei escutar a nossa música. Aliás, a minha nossa música, porque você nem sabe – nem sabia, a partir de agora – que a gente possuía uma música. Ora, deus do céu, você jamais soube sequer desse “a gente”. Meu romantismo não tinha ingenuidades então. Não será agora que vai ter: no nosso tempo, éramos duas primeiras pessoas do singular. Eu comigo, você contigo, eu contigo, você, amigo. Quem diria que, no meio de livros mofados, caveiras e retratos, entre um anúncio de corvo e outro, haveria um poeta no meio do caminho decretando: “Nunca mais, nunca mais”? Never more?
Alguns segredos jamais deveriam ser revelados, não é mesmo? Pois sim, eu não gostaria que o meu fosse um destes. Só não há mais a oportunidade. Além de esotérico, estou mais criminoso. Esperando uma brecha para aplicar o golpe. Não haveria um jeito, haveria? Tantas vezes fiquei pendurado pela ponta da língua, quantos adiamentos – amanhã quem sabe. Se tudo dissolvesse-se, eu teria mais um dia. Imagine só você, aprendi com uma frustração de cego que os mais-um-dias também são contados. Eu brinco comigo hoje, dizendo pra mim mesmo que naquela última vez era a vez do desabafo. Muito fácil achar isso agora que ficou tão distante no tempo, sim? Às vezes eu me pergunto se eu não estou inventado essas coisas, só pra ser novelesco. E você nem tem culpa, o que é para mim tua maior ofensa. Esta tua inocência absurda, esse alheamento, essa tolice... Veja só, eu falando como se você estivesse aqui do lado. O certo é dizer: aquele seu alheamento, aquela sua tolice, aquela sua mania de ser absolutamente imparcial. Meu segredo também é um remorso. Quantas vezes eu esperei com um silêncio certa pista, determinado indício de que você estaria entendendo tudo e não me deixava a par disso só pra me poupar de uma desilusão? Um remorso e outra sensação de gozo interrompido, como quem descobre no meio da festa que um parente distante foi acidentado. A culpa do prazer que, por causa de um caos tão incontrolável do mundo lá fora, tornou-se ilegítimo, sem que eu fizesse por desmerecer. Agora que eu falei tudo isso, também me pergunto se foi realmente necessário. O que você acha? O que você faria se descobrisse que tem um peso sobre a história de alguém tão imenso, a despeito da sua própria consciência? Que resposta você diria a quem jogasse sobre você, sem aviso nem sutilezas, a grande responsabilidade dos que cativam?
Alguns segredos jamais deveriam ser revelados, não é mesmo? Pois sim, eu não gostaria que o meu fosse um destes. Só não há mais a oportunidade. Além de esotérico, estou mais criminoso. Esperando uma brecha para aplicar o golpe. Não haveria um jeito, haveria? Tantas vezes fiquei pendurado pela ponta da língua, quantos adiamentos – amanhã quem sabe. Se tudo dissolvesse-se, eu teria mais um dia. Imagine só você, aprendi com uma frustração de cego que os mais-um-dias também são contados. Eu brinco comigo hoje, dizendo pra mim mesmo que naquela última vez era a vez do desabafo. Muito fácil achar isso agora que ficou tão distante no tempo, sim? Às vezes eu me pergunto se eu não estou inventado essas coisas, só pra ser novelesco. E você nem tem culpa, o que é para mim tua maior ofensa. Esta tua inocência absurda, esse alheamento, essa tolice... Veja só, eu falando como se você estivesse aqui do lado. O certo é dizer: aquele seu alheamento, aquela sua tolice, aquela sua mania de ser absolutamente imparcial. Meu segredo também é um remorso. Quantas vezes eu esperei com um silêncio certa pista, determinado indício de que você estaria entendendo tudo e não me deixava a par disso só pra me poupar de uma desilusão? Um remorso e outra sensação de gozo interrompido, como quem descobre no meio da festa que um parente distante foi acidentado. A culpa do prazer que, por causa de um caos tão incontrolável do mundo lá fora, tornou-se ilegítimo, sem que eu fizesse por desmerecer. Agora que eu falei tudo isso, também me pergunto se foi realmente necessário. O que você acha? O que você faria se descobrisse que tem um peso sobre a história de alguém tão imenso, a despeito da sua própria consciência? Que resposta você diria a quem jogasse sobre você, sem aviso nem sutilezas, a grande responsabilidade dos que cativam?

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