Assombro

Estava faltando assunto quando a esperança adentrou o quarto. Tenho estado muito abstrato, não consigo pensar de forma prática. Assim: ao dizer que estava faltando assunto quando a esperança adentrou o quarto, na verdade o que eu deveria ter dito, se fosse prático, é que eu procurava desesperado sobre o que escrever quando, de repente, alguém entrou aqui, e dessa ligeira conversa me saltou um assombro escrevísível. Percebe que mesmo na explicação eu não consigo me livrar das palavras enormes, como esperança e assombro? Sem saber o que escrever, insisto e me abstraio. Escrevendo, eu me absorvo. Falta sono, falta coragem, falta perspectiva – de quantas palavras enormes mais eu irei precisar até achar o que dizer?
Falta coragem. Eis o mote? Numa noite insone dessas, me peguei discutindo com o escuro sobre não haver mérito em ser-se destemido. Mas isso já está tão batido. Quantos filmes nós não já vimos, quantos livros não já lemos, que diziam a coragem ser mérito de quem teme? Não é óbvio? Mas se você me perguntar do que eu tenho medo, hoje não vou conseguir responder de acordo, porque, afinal de contas, os objetos temidos dificilmente são sentidos como abstrações. Eu poderia muito bem dizer que tenho medo de me assaltarem, de ser atropelado, de perder a pouca visão que me resta, da morte dos meus... Eu não digo. São coisas muito tácitas para que eu as diga. Eu digo que tenho medo de coisas enormes como o futuro, o amor, a solidão, a decepção... Eu só digo que tenho medo daquilo pelo que não posso me responsabilizar, por estar muito além de mim. O que isso me torna? Um covarde que tem medo de temer? Covardia é crime? Destemor paga as contas? Mas coragem salva. E é tão trabalhoso ser o próprio herói. Geralmente o que se procura é alguém que nos salve. Também essa acomodação me incomoda. E me contraria. Então eu não sou capaz de me manter? Claro que o poeta tem razão, no man is an island. Só que se eu não consigo salvar sequer a mim mesmo, ao tentar salvar alguém não estarei sendo generoso, mas leviano. Aquelas boas intenções que o outro poeta mencionou... Tantas vezes ser-se precipitado é confundido com ser-se corajoso.

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