Para o recém-chegado Pedro Luiz
Campina Grande, 19 de setembro de 2011
Querido Pedrinho,
Você teve talvez
a sorte de nascer em um tempo de começos. Estamos no primeiro ano da segunda
década de um novíssimo milênio. Escrevo pra você estas palavras, a propósito,
muito próximo do meu aniversário. Temos 25 anos de diferença entre nós, e
pode-se dizer que, da minha infância para a sua, o mundo terá tornado-se outro
mundo várias vezes. Por exemplo, eu disse que você nasceu em um ano de inícios,
mas está na moda a gente querer adivinhar o fim dos tempos. Só em 2011, o mundo
já acabou umas três vezes. Sempre tem uma profecia nova nos ameaçando. A mais
grave é a que prevê o apocalipse para o finalzinho de 2012. Espero que não, do
contrário, você teria tido muito pouco tempo pra experimentar o que a Terra
oferece. Apesar de tudo, viver aqui ainda pode valer a pena.
Como em um filme
de catástrofe: se você está lendo esta mensagem, significa que sobrevivemos. Temos
aprendido. Meio à força, é verdade – muitas catástrofes têm levado vidas em
massa, terremotos, furacões... Todo mundo hoje sabe do Aquecimento Global, que
é um jeito inteligente de dizer que o mundo está se deteriorando. A culpa disso
é muito nossa. A solução, também. Tanto é que, mesmo não sendo presente de
forma unânime, o pensamento ecologicamente correto está em alta. Só acho que
ainda não descobrimos muito bem como pôr em prática esse pensamento. Mas já é
um começo, sim?
Sua mamãe me
pediu que eu escrevesse sobre como o mundo andava no ano em que você chegou.
Anda rápido. Todo dia tem uma tecnologia nova. A vida está cada vez mais
instantânea. Instantâneo é você poder fazer um macarrão de sabor muito ruim e
pouco saudável em três minutos. Instantâneo é eu poder escrever pra você agora
e todo o mundo, na mesma hora, poder ler pela internet. TODO O MUNDO MESMO. Em
qualquer lugar do planeta, alguém pode ver essa mensagem, porque eu a publiquei
em um blog. Aliás, a internet só cresce desde a década de 1990, porque ela foi
o jeito mais eficiente e simples que o homem moderno encontrou para complicar a
vida. E o homem de 2011 adora complicar a vida, pra ter a impressão de que está
fazendo justamente o contrário. Dá pra entender, Pedrinho? Tentando solucionar
problemas que não são urgentes, criamos aparelhos tão interessantes que
chegamos a acreditar que realmente precisamos deles. Temos o GPS, aprendemos
todos os comandos e a ler mapas muito confusos, que é pra evitar o
constrangimento de pedir informações às pessoas na rua. Temos os celulares,
juntando mil funções que temos de memorizar, só pra nos sentirmos acompanhados
quando saímos de casa. E com tantas opções, nos conectamos muito mais com os
aparelhos do que com as pessoas.
Falando assim,
parece que estou reclamando, né? Mas eu acho que tudo é natural. Quando eu era
criança, meus pais reclamavam que eu jogava vídeo-game demais, que isso não
podia ser saudável, ao contrário deles, que tiveram brinquedos de madeira e
eram mais felizes. Eu nunca senti falta de um boneco de madeira, e tive uma
infância muito boa com o que meu tempo me proporcionava. Espero que seja assim
pra você também, Pedrinho.
Curioso é ver
como as coisas se transformam. Nos anos 1990, quando assistir TV ainda era mais
hábito do que necessidade fictícia, os ídolos infantis eram pessoas adultas que
se comportavam e vestiam-se como crianças – a Xuxa, a Angélica, a Eliana...
Hoje, os grandes artistas venerados pela geração atual são crianças que querem
parecer muito adultas. Eu cito algumas aqui só porque quero que você me diga
que fim levaram. Por exemplo, mundialmente famoso, temos o Justin Bieber,
moleque americano de 16 anos que já tem fama e fortuna de gente grande, só
porque postou uns vídeos no Youtube. As meninas o desejam, os meninos o copiam.
Mas as músicas dele têm letras tão adultas quanto as da Beyoncé – ser adulto,
no entanto, não significa ser maduro. No Brasil, por sua vez, a criança mais
famosa é a Maisa, que só levou fama de artista porque se vestiu de couro, com 4
anos de idade, e imitou a Ivete Sangalo – maior nome da música pop brasileira.
Outra coisa que
também se transformou foram os personagens que fazem sucesso. Em 2011 tudo se
inverte. Monstros, que antes eram criaturas horríveis e sanguinárias,
tornaram-se cidadãos-modelo. A saga Crepúsculo (série de livros que virou série
de filmes, o que é outra forte tendência hoje em dia também) apareceu pra
mostrar que a imaginação humana não tem limites. A história romântica entre uma
humana, um vampiro e um lobisomem fez com que a adolescência, que é mais precoce
hoje do que quando eu era adolescente, se inspirasse em criaturas que antes
eram evocadas para assustar as criancinhas mal educadas.
Nessa mesma
lógica, mas um pouco mais infantil – ou menos romântico – que esses monstros,
apareceu o Harry Potter, outra série de livros que foi para o cinema e
arrebatou as emoções não só das crianças. Trata-se de uma história na qual
bruxaria é legal. Depois de séculos queimando nas fogueiras da inquisição, lá
na Idade Média, as bruxas viraram protagonistas mundiais, em uma febre que
começou em 1997 (quando o primeiro dos sete livros que contariam essa aventura
enorme foi lançado) até 2011, poucos meses depois que você nasceu (quando o
último filme chegou aos cinemas). Agora, ser chamado de Bruxa, Pedrinho, é
elogio.
No geral, eu até
acho que essa inversão é um sinal de desenvolvimento, porque mostra um nível de
tolerância ao que é diferente de nós que antes não existia muito. Mas vai saber,
né...
Parece-me que
ser criança dura cada vez menos tempo. Ou isso, ou o conceito de infância é que
se transforma. Não sei com quantos anos você vai ler esta mensagem, mas imagino
que seu entendimento chegue bem antes do que chegou para a minha geração. O que
é muito bonito. Prova que, apesar da aparente estupidez, a raça humana evolui,
de fato. Falei muita coisa, mas o mundo é sempre maior do que se fala. O que eu
gostaria mesmo é que você pudesse aproveitar o seu tempo da melhor maneira
possível. Teu presente será meu futuro, e eu espero que, nessa época de
começos, você consiga experimentar o que lhe for oferecido, sem ser acusado por
um passado que, mesmo também sendo seu, não lhe pertence. Teu passado foi meu
presente, eu que leve a culpa. Mas vivemos juntos, mesmo separados pelas
gerações. Viver junto é o que ainda vale.
Beijo do “Tio
Leão”
Sidney Andrade.,
(Esse texto foi publicado simultaneamente neste blog e no LIVRE PAUTA)
Já diz Adélia: "Saberemos viver uma vida melhor que esta, quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos?".
ResponderExcluirMuito bom seu texto!
Leão amei o texto...bem melhor que eu imaginei! Certamente quando meu filho vier conhecer seu blog, que estará mais famoso do que você imagina, vai ficar feliz em ver que a mamãe comentou!
ResponderExcluirObrigada por ser tão maravilhoso pra nós! Amamos você!
Biana (Papoula)
Sidney, que texto mais poético e profundo!
ResponderExcluirChega a ser melancólico, sem causar desânimo.
É sutil, singelo, fala de mudanças boas ou ruins sem condená-las. Apenas expõe e busca uma expectativa.
Me apaixonei pelo texto.
Juro que o primeiro mecanismo automático que veio à minha mente foi copiar e salvar no meu pc, com a intenção de não perdê-lo nunca, de sempre poder recorrer a ele quando quiser entender um pouco da vida.
A sua sensibilidade transborda naturalmente.
Senhor, espero um dia chegar perto disso!
Grande abraço, meu amigo.
Fazia tempo q não aparecia aqui, mas já devia prever as grandes jóias que iria encontrar.