AGRADECIMENTOS (OU TODOS OS OMBROS)


Dedico, com gosto e satisfação, este exercício de autoconhecimento, à mulher que me desvendou mais facilmente e, desse modo, me ajudou tanto a desbravar a mim mesmo, Lourdes Xavier, mãe de coração e eterna mentora, a quem o título de mestre calharia tão melhor, justamente por nunca ter feito questão de título algum.



AGRADECIMENTOS OU TODOS OS OMBROS

Tem-me ficado cada vez mais nítida, à medida que sigo avançando com meus passos, depois de passar a precisar de outros meios para encontrar meus caminhos, esta confortável transição do papel que o ombro cumpre na relação entre nós, humanos sempre necessitados, quer admitamos ou não, da companhia uns dos outros. O lugar do choro e do desabafo do amigo, o pedestal para os queixos entre abraços que se ancoram, enfim, o canto a que eu recorria sempre que precisava parar, então, passou desse templo do amparo estático para o ponto de partida de indispensáveis movimentos. A minha mão, antes pendida, recorre, agora, ao espaço do sossego para me abrir caminhos guiados com a boa vontade dos olhos alheios. Os ombros, tão negligenciados, tornaram-se faróis para a vista apagada. Não se perder, eis o medo que apavora dentro do escuro imposto. Na superfície dos ombros, os caminhos ocultos se fazem desbravar, porque andar junto parece acender, na dimensão do próprio ato, uma chama sem incêndio capaz de gravar a fogo , mesmo na superfície de retinas desbotadas, os trajetos que desbravamos a partir deste contato, tão necessário e simples, entre alguém que precisa e alguém que pode. Porque ambos querem. Querer o próximo passo é a melhor qualidade dos ombros que me guiam.

Agradeço, em primeiro lugar, assim, àqueles cujos modelos serviram para forjar meus próprios ombros. Do útero dela aos braços dele, passei por muitos caminhos desde que meus pais, Francinete e Severino, começaram a me puxar pela mão, mesmo antes de desconfiarem da minha futura necessidade de ombros. Principalmente, pela crença de que eu podia mais e, depois, por não deixarem-se abater e por terem se permitido convencer que eu também não precisava deixar de poder mais, mesmo sem enxergar, eles estiveram comigo em cada lágrima derramada e cada sopro, de desilusão ou esperança, a cada surpresa entre um exame oftalmológico e uma prova de admissão, lendo a bula do colírio e o formulário da inscrição, me acompanharam, como quem diz: vai à frente, que te empurramos, filho. Acostumado que fiquei a estar ligeiramente atrás de quem me acompanha, agora, preciso me lembrar sempre da simples lição que eles me ensinaram, inconscientemente, porque cuidar é teorizar sem palavras: “você precisa continuar, pois teu caminho também é o nosso”.

Depois deles, ao ombro mais parecido com o meu, pelas constantes caronas, mesmo diante da falta de tempo ou paciência, em face da pressa ou do ócio, agradeço ao meu irmão mais novo, Sidelan Andrade, porque saber conduzir e sair do próprio percurso em benefício do caminho alheio não é para todos, apressados que nos acostumamos a ser, querendo muito chegar o mais rápido possível a metas invisíveis, sem ao menos perceber quem estamos a atravessar no meio de tantas rotas inadiáveis, aparentemente inadiáveis.

Aos queridos amigos de antes da minha necessidade de ombros, Samelly Xavier e Anderson marcos, ambos tão crentes em mim. Muitas vezes, mais crentes do que eu mesmo. Agradeço-lhes por terem aparecido ainda a tempo de que eu lhes desvendasse os sorrisos e franzir das sobrancelhas, mas principalmente agradeço-lhes por terem permanecido até hoje, figuras muito presentes não só na minha memória visual, mas na minha trajetória acadêmica. Conheci-os por conta das duas graduações nas quais me aventurei e, cada um a seu modo, me trouxe até aqui, mostrando direções e indicando caminhos, sem sequer eu precisar encostar em seus ombros. Mesmo assim, quando puderam, estenderam-me também estes mesmos ombros já avistados por mim antes, me revelando, assim, que olhar e tocar pertencem a dimensões completamente diferentes e que, portanto, apenas enxergar os fatos nunca será suficiente para esgotar a potencia dos fatos.

Desses dois, afinal, cheguei aos tantos outros colegas de ofício que me marcaram no mestrado. Aqui pude divisar muitas teorias e aprender a enxergar sem olhos. Agradeço, então, àqueles cujas vozes me permitiram desenvolver o novo olhar que precisava ao me aventurar neste programa. Em primeiro lugar, por ter aceito o desafio de acompanhar, às cegas, uma pesquisa tão imprevisível, pelos apontamentos sempre certeiros e objetivos que me ajudavam a ser menos abstrato (essa mania que não perco, nem de olhos fechados), agradeço ao meu orientador, Luciano Barbosa Justino, com o desejo de ter conseguido absorver do convívio acadêmico a sua habilidade com nossos objetos de estudo. Depois, àquela que, aparentemente, mais ternamente me compreendeu, seja no que escrevo, seja no que faço, e mesmo naquilo que cuspo sem filtros, pedindo desculpas por tê-la ofendido na primeira vez que nos reunimos depois da aula, numa conversa informal entre estranhos que gostavam das mesmas coisas, ainda que eu saiba da desnecessidade das desculpas, pois sua qualidade mais admirável para mim é a afetividade desafetada e sem melindres, agradeço a Elisa Mariana, jovial e inquieta, querendo muito imitar sua mania de nunca parar.

Agradeço também à mulher que começou tudo isso em Elisa, sua mãe e nossa tão amável professora, Geralda Medeiros, pelo carinho com que envolve a literatura dentro dos corações aflitos dos estudantes, nutrindo, eu, a vontade imensa de, quem sabe um dia, ser capaz de guardar comigo ternura o suficiente para encantar um departamento inteiro, como ela tão espontaneamente faz. Pelos bombons, biscoitinhos, bolos e mimos da efusiva Zuleide Duarte, estes que vinham sempre recheados com bastante exuberância e bagagem literária, agradeço-lhe pelo calor com que me teve em suas aulas, e espero, ao cabo de mais ou menos duzentos anos, ter conseguido ler metade de tudo o que ela já leu. Por fim, imensa gratidão ao brilho tão intenso dos olhos de Diógenes Maciel, cuja competência me inspira e cuja paixão pela arte me fez, muitas vezes, revigorar meu ânimo, este que não poucas vezes arrefeceu diante da dúvida e da insegurança no período delicado em que me aventurei com este mestrado; ainda, reitero, não vou esquecer das conversas que tivemos sobre meu objeto de estudo e de como aquele brilho de seus olhos conseguiu ofuscar a minha apatia de estar tratando com teorias essas coisas que, em mim, apareceram na prática e sem anúncios; agradeço-lhe, enfim, por ter me mostrado na pele, entre textos e cafés, que, enxergando ou não, precisamos sempre ter, como disse Pessoa pela boca de Caeiro, “o pasmo que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras”.

É que, a propósito, não me faltaram pasmos. Quanto aos companheiros de estudo, em primeiro lugar preciso agradecer ao primeiro mestrando com quem tive o privilégio de cruzar, na primeira aula do primeiro semestre, durante a primeira vez que eu saía de casa sozinho depois de ter perdido a visão; ao meu lado, Fábio de Lima mal desconfiava que eu sentia, ali naquela carteira, a exata sensação que meu eu de cinco anos de idade provavelmente sentira ao ser deixado na escolinha, sozinho, para valer-se -se de si mesmo, pela primeiríssima vez. Desamparado, o meu receio, na ingenuidade de quem ainda está para descobrir como agir fora de casa depois de adulto transformado, era a assinatura na lista de presença que seria ali passada; ao chegar a minha vez, caneta na mão, papel em branco inatingível à minha frente, Fábio entendeu e ofereceu não o ombro, mas a mão que me indicaria o primeiro traço desenhado por conta própria, eu sem família ou amigos que soubessem de mim a priori; Fábio, sem querer nem pretender, me ensinou que pedir ajuda não fere, tanto quanto ajudar não incomoda e, mais ainda, que esclarecer sempre é mais fácil do que se envergonhar; assim, o primeiro gesto de amizade que consegui extrair de um estranho lhe pertence; por condensar em si tantos primeiros, dificilmente esquecerei de Fábio, voz ‘mansa, inteligência plácida e, me disseram, olhos azuis cujo claro transparece até para quem quase se esqueceu do tom que o azul tem.

Depois me acalmei e conheci os demais, me afeiçoei e descobri pessoas interessantíssimas, sem precisar de uma imagem que as determinasse. Apesar da turma inteira ter me tocado de alguma forma, uns mais do que outros, como sempre, se destacam, por terem deixado a marca de seus ombros sobre os meus. Agradeço ao ombro ao mesmo tempo casto e profano de Andreia Luiza, que me guiava tímida e sem hesitações. Agradeço ao ombro desbravador e enigmático de José Júnior, que me guiava meio querendo ser guiado também, satisfeito que estou de ver ele tendo achado seu próprio caminho. Agradeço ao ombro, aliás, ao cotovelo de Huerto Luna, alto demais pra me guiar, mas que o fazia com elegância e leveza. Agradeço ao ombro carnavalesco de Abisague Cavalcante, a não se contentar com a mão apenas e exigindo me guiar por meio do melhor abraço condutor já avistado por aqueles corredores.

Mas, em especial, agradeço muito ao ombro que mais me acompanhou, entendeu e conduziu desde que resolvi dar início a esta pós-graduação. O ombro que me encontrou meio por acaso, no dia da prova de proficiência em língua estrangeira, porque a prova anterior eu precisara fazer em sala separada dos demais candidatos. Aquela ligeira e amarga sensação de isolamento, então, foi Waldívia Oliveira quem dissipou, do jeito que ela sabe fazer muito bem, cheia de gestos e modos, ondas e curvas, como uma encantadora de serpentes que conseguiu, com seus movimentos, convencer mesmo quem não pode vê-los. Agradeço pelas noites de desabafos e pelas manhãs de fofocas, por ter me apresentado à criança mais fascinante que conheci nos últimos anos, seu filho, Arthur Wallace, em quem me vejo refletido, como num espelho em retrospecto. Por ter me acompanhado, ombro a ombro, nas mesmas dúvidas e aflições acadêmicas, e até por ter dividido comigo o mesmo orientador, porque, assim, acabamos formando um time muito empenhado em não perder jogando em casa. Pelos chás e biscoitos, almoços e jantares, pelos telefonemas e mensagens de voz, pelos olhos que me acudiram tantas vezes mostrando-me a frase que não fazia sentido ou a pontuação fora do lugar. Pela amiga que se tornou, por ter transcendido a minha necessidade de ombros, Waldívia sempre ocupará um lugar cativo dentro dessas minhas memórias à meia luz.

Mas não só da turma com quem dei entrada vivi esse percurso. Encantadores efeitos colaterais me saltaram do convívio com o programa durante estes pouco mais de dois anos. O primeiro deles, ombro ao qual eu já havia me afeiçoado, aliás, antes do mestrado, pois, afinal, o mundo é pequeno demais para querermos evitar certos reencontros, foi Duílio Cunha, que se apresentara a mim por meio do querido Anderson Marcos e que, tão querido também, coincidiu de estar ali no lugar certo, na hora certa; porque quis me ensinar o ritmo teatral nos degraus das escadas, para que eu não rolasse de cômoda conveniência pelas rampas, e porque, quase como outro irmão, também me deu preciosas caronas, encurtando o caminho irregular entre minha casa e a universidade, agradeço-lhe, na expectativa da próxima vez em que a vida nos fará coincidir novamente Segundo, ao efeito colateral mais inspirador do qual eu poderia ser acometido, agradeço ao melhor bibliotecário das nuvens que eu poderia desejar, Carlos Adriano, pelos valiosíssimos (e numerosos) conselhos, indicações e livros que me deu, pelo tamanho que esta dissertação tomou graças a tão valiosa fonte de pesquisa, por ser o culpado de eu querer falar em prol do livro digital sem esquecer que o papel também tem seu hype pós-moderno, por me despertar a sensatez de não adotar maniqueísmos ou binarismos fúteis, por transbordar inteligência e carisma sem, no entanto, cair na vulgaridade dos preciosismos e, assim, se mostrar para mim como um ombro igual ao qual eu queria tanto ser quando crescer.

Por fim, como aparecendo de repente e, igualmente de repente, decreta que permanecerá, o terceiro efeito colateral está sobre os ombros de Adelino Silva, cuja doçura me desperta certa necessidade de revigorar a fé nas pessoas, agradeço-lhe pelo esforço calmo e insistente com que faz tudo o que se propõe a fazer, pelo empenho em estreitar os laços que julga importantes, por reavivar em mim uma inocência perdida, por me fazer enxergar a diferença entre inocência e ingenuidade, pelo ombro que sempre chega quando eu mais preciso, pela paciência perdida e reencontrada nele, pela sutileza nas palavras que, obviamente, esqueci e, aparentemente, custarei a recuperar, por ser, afinal, para mim, olhando-o do meu modo meio embaçado e sombrio, o desenho possível, ainda que em seu primeiro rascunho, daquela frase de efeito que eu preciso tanto interiorizar: “há que endurecer, mas sem perder a ternura”.

Aparentemente, ao meu redor, tudo girou de modo a me circunscrever dentro de uma atmosfera propícia. No meio do caminho, entre um semestre e outro, acabei conhecendo a minha melhor companhia. Sem nada pretender, esbarramo-nos, porque eu sou distraído demais e ele, sem alguém que lhe indique a direção, se perde fácil. Mas não se abandona. Nem larga de mão. Esbarrou mas, no tempo da colisão, decidiu que ficaria, pediu pra ficar e ficou. Agradeço, logo e muito, a Wallace Fernandes, porque depois que eu lhe disse da minha necessidade de ombros, não se contentou e me ofereceu a própria mão. Pelo companheirismo que me dedica, por me permitir dedicar tão belo companheirismo também. Por não me entender sempre, mas, ainda assim, achar que entender não é tão determinante assim. Pela presença que instaurou nos meus turnos, do bom dia ao boa noite, Por ter me dado um pôr do sol inédito, me incluindo em uma paisagem inalcançável, mas a alcancei porque sentir vem de dentro e não pressupõe o funcionamento perfeito de um órgão imperfeito e falível. Pelo senso de humor que alegra meus não tão raros dias de cansaço, por escutar, sem tédio ou impaciência, as inevitáveis reclamações de alguém que convive com um desafio constante impossível de ser revertido, por acolher as lágrimas de meus olhos vazios e por enchê-los também, com seu modo peculiar de me fazer sentir acolhido. Pela amizade e cumplicidade que estão acima dos contratos e, melhor ainda, por este fato ter se dado espontaneamente, sem audiências ou testemunhas. Por ser a testemunha ocular daquilo que meus olhos não alcançam e por me estimular sempre para que eu alcance o que puder, com ou sem visão.

Muitos caminhos me trouxeram até aqui, e eu não poderia esquecer dos primeiros passos que dei, ainda inconscientemente, em direção aonde agora me encontro. Preciosos contatos fiz, durante aquele período suspenso em que ficamos, quando passamos por mudanças tão bruscas e a vida nos força a reajustar nossos modos e propósitos. Tateando muito, aprendendo solitário, mas nunca sozinho, acabei encontrando, não nos ombros, mas  nas vozes dos queridos amigos involuntários, Fernando Scalabrini, Renata Fonseca, Ricardo de Melo, Ricardo Cheruti e Sonny Pólito, componentes da equipe atual do Podcast “Papo Acessível” (www.papoacessível.com.br), além de Ana Gouvêa e Alexandre Costa, que dela já fizeram parte e agora ocupam outros espaços virtuais; enfim, este grupo de pessoas cujas experiências, tão próximas da minha, fizeram-nos querer compartilhar tantos conhecimentos e vivências novas. Posso afirmar, inclusive, que eles todos, unidos no propósito de divulgar e difundir maneiras novas de acessar e consumir tanta informação disponível a quem tiver olhos ou não para ver, foram em grande parte os responsáveis pela pesquisa aqui desenvolvida, uma vez que, a partir dos episódios do seu Podcast, produzidos desde 2012, coincidentemente o mesmo período em que passei a precisar realmente das tecnologias assistivas, enfim, por meio do conteúdo que eles disponibilizaram e ainda disponibilizam, gratuitamente e com tanta competência, eu pude começar a aprender boa parte daquilo que precisei pôr em prática para efetivar o texto e a investigação pretendidos com meu projeto, além do que, pelas suas vozes ecoando em minha então mente abandonada, pude entender, pela primeira vez e à distância, que eu não estava nem precisaria estar sozinho para me adaptar à esta condição tão desnorteante. Assim, ao Papo Acessível, mais do que agradecer, devo-lhes o fato de me ter sentido capaz o suficiente para concluir um mestrado cujo projeto leva em conta duas áreas para mim tão caras: a literatura e as tecnologias da informação acessíveis.

Por falar em aprender, termino agradecendo a toda a equipe do Instituto de Assistência e Educação aos Cegos do Nordeste, aqui de Campina Grande, expressa nas pessoas de Adenize Queiroz e John Queiroz, por terem visto naquele “recém-cegado” garoto pasmado que bateu à sua porta o potencial de fazer alguma diferença, depois de tanta coisa aprendida por conta própria. Suponho que certa aura do espanto fuja aos olhos experientes de quem já há muito aprendeu a enxergar, sem luz, por trás dos medos daqueles a quem ajudam. Aos diretores do instituto, assim, agradeço pela oportunidade dada de aprender tão mais do que eu já sabia, a partir do convívio diário e próximo com meus iguais; além de ter podido me tornar, eu mesmo, um ombro a guiar outros ombros. E mais, sinto-me pleno de gratidão pela gostosa sensação de descobrir com eles todos, alunos, professores e funcionários do Instituto, videntes ou cegos, que aprender junto sempre será o jeito mais eficaz para transcender a nós mesmos e nossas limitações.

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